Desde o primeiro momento que olhou pra mim, havia julgado. Uma história toda já fora contada pela minha aparência e meu berço. Meu caráter, por ti envocado com a dignidade de uma fofoca.
Mas aí eu abri a boca, tomei partido de ações e as ondas desmancharam seus castelos de areia.
Assim, o tempo passou e mantive meus olhos atentos a você sempre observando com cautela. Era como um duelo. Cada um esperando o outro escorregar. E quando escorregava, era como esfolar um calo em sua índole. A dúvida só não é pior que o preconceito. Ela é uma semente de mostarda que germina em seu coração e é regada por cada insegurança de seu verdadeiro eu. Você não percebe, mas a dúvida torna-se amarga e picante, e seu cheiro forte faz os olhos arderem e lacrimejarem. A duvida fará você duvidar de você mesmo. Então, antes de colocar uma maçã sobre a cabeça de sua cria amarrada em uma árvore e me entregar uma flecha, pergunte se o que matou o tirano Hermann Gessler foi realmente Guilherme Tell, ou se na verdade, não foi a dúvida.
Mas alguém como você gosta de uma briga, e não admite perder tão cedo, então por isso você age como se eu fosse apenas um antagonista; sim, um vilão, pois você quer ser um exemplo àqueles a sua volta. Talvez eu não seja quem você deveria tomar cuidado. Talvez este fosse você mesmo. E advinhe: a lua tem quatro fases e a maré continua derrubando os castelos de areia em todas elas. As marés não mudam, elas ficam caladas com o silêncio da noite, e continuam indo e voltando mesmo sem ter ninguém as vendo. E elas não tem dúvidas.
