Pesquisar este blog

domingo, 6 de setembro de 2015

Ontem a noite estava frio, e eu lembrei de Dublin
Lembrei de algumas semanas antes de você chegar, como era escuro, gélido o vento que cortava pela janela, naquele quarto gigante. E eu ficava no batente, sozinho, esperando seu abraço me apertar. Eu era James Cook, você era Effy. Quando você chegou nada mais importava, e podíamos fugir para o meio da floresta, ou qualquer outro lugar frio, for that matter.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Traumas discretos

     Olhe ao redor, e veja as pessoas. Não só as veja, tente as perceber. Algumas vão te oferecer sorrisos afetados, manias inquietas, gestos generosos e timidez não assumida. Vão te oferecer uma vasta gama de micro-traumas de experiências passadas, seja da natureza que for, pequenos são estes sulcos da lapidação incessante desta vida. Olhos destreinados talvez não percebam, pois estes traços se manifestam em sublimes instantes de descuido ou descontração. Você deve conhecer alguém que baixa o olhar e evita contato visual ao conversar, ou alguém que geralmente abaixa sua cabeça quando vai falar com outra pessoa. Este é o tipo de efeito de que falo.
     São estas minúsculas (às vezes grandes) fraturas cicatrizadas que formam o "jeito" de cada um. Todos temos de lidar com dilacerações, por menores que sejam, na alma, no coração e na pele, e estas deixam vergões sinuosos em nossas costas que nos servem de lembretes, assim como tatuagens contando histórias. Mas como identificar algo tão íntimo nas outras pessoas? Simples: mire nos olhos, converse olho-a-olho, e você notará a mais singela afetação. É claro que você deixará expostos seus micro-traumas também, mas qual o problema? Existe um ditado que fala "os olhos são a porta da alma" e grande verdade há nisso, pois sempre é possível se conectar através dos olhos. Estes, por vezes, são ferramentas de comunicação mais eficientes que a própria boca, se quer saber.
     Imagine que você possa saber de coisas que aconteceram às pessoas só de olhar para seus olhos. Talvez não com tanta precisão, mas ainda assim, sabe pelas dificuldades e alegrias que elas passaram. Mesmo que queiram esconder, elas vão soltar um leve sorriso quando você falar sobre tal ou tal coisa, vão franzir as sobrancelhas quando usar certo tom de voz, e assim por diante, revelando como se sentem quando são remetidas a uma lembrança. Sabendo disso, você ainda pode julgar os atos das pessoas? Sempre que tiver uma opinião forte à respeito de alguém ou mesmo um julgamento precoce, lembre-se de seus micro-traumas, e pergunte-se o que outros fizeram a esta pessoa. O que levou esta pessoa a agir assim? Caráter? Índole pura e friamente má? Ou uma combinação de fatores, um caldeirão de experiências que moldaram sua conduta? Será que depois de buscar os olhos de uma pessoa e perceber o fundo de sua alma junto com todas as cicatrizes ali você vai continuar se achando tão diferente dela?
     Somos todos irmãos, e a prova disso está no fato de que apesar de diferentes por fora, temos todos as mesmas tatuagens por dentro.